Proibição tirou plataformas autorizadas do ar, mas futuro do setor ainda está em disputa; ao TechTudo, especialistas explicam risco de avanço do mercado clandestino

Os sites e aplicativos das bets autorizadas deixaram de receber apostas no Brasil nesta terça-feira (6), após a entrada em vigor da proibição determinada pela Medida Provisória (MP) nº 1.394/2026. O encerramento das operações, porém, pode não ser definitivo. A medida ainda será analisada pelo Congresso e enfrenta questionamentos no Supremo Tribunal Federal (STF), dois caminhos que podem alterar o futuro do setor. Fora do mercado regulado, outro movimento preocupa especialistas. Plataformas clandestinas podem ocupar parte do espaço deixado pelas empresas que saíram do ar.

A oferta ilegal de apostas, por sua vez, já tinha participação expressiva antes mesmo da proibição. Um levantamento do Instituto Locomotiva, encomendado pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidade que representa empresas do setor de apostas, estimou que essas plataformas concentravam de 38% a 44% das apostas online no primeiro semestre de 2026. Outro estudo encomendado pela entidade, elaborado pela LCA Consultores, projetou que o mercado clandestino poderia movimentar entre R$ 26 bilhões e R$ 30 bilhões em apostas ao longo de 2026.

Para entender os possíveis efeitos da medida e o que pode acontecer com o setor, o TechTudo conversou com Gabriel Vaz, economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), Carlos Henrique da Silva Junior, especialista em mercado financeiro e Strategic Advisor da Freex Casa de Câmbio, Witoldo Hendrich Júnior, presidente da ABRAJOGO, e Alessandro Valente, empresário e investidor do setor de iGaming.

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Bets vão voltar? Entenda o futuro das apostas e o avanço do mercado ilegal — Foto: Reprodução/Canva

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Índice

- As bets vão voltar? Entenda o cenário atual

- O que aconteceu com o mercado de bets no Brasil?

- O que é considerado uma aposta ilegal no Brasil?

- Como identificar um site de apostas irregular?

- Por que usuários podem migrar para plataformas ilegais?

- Quais são os riscos de apostar em sites não autorizados?

- O que pode acontecer com o mercado de apostas nos próximos meses?

As bets vão voltar? Entenda o cenário atual

As bets podem voltar a operar no Brasil, mas não há garantia de que isso aconteça. A proibição está em vigor desde 25 de setembro, quando foi publicada a Medida Provisória (MP) nº 1.394/2026. Desde 6 de outubro, os sites e apps das empresas que atuavam de forma regular deixaram de receber apostas no país. Como se trata de uma medida provisória, porém, o quadro atual ainda pode mudar. Carlos Henrique aponta os caminhos que poderiam permitir a retomada das operações.

“As bets que deixaram de operar podem voltar ao mercado brasileiro apenas se houver mudança no quadro jurídico. Isso pode ocorrer se o Congresso rejeitar ou alterar a MP, se o STF suspender a medida, ou se uma nova lei criar outro regime regulatório”, explica.

Uma eventual mudança na legislação, no entanto, não significaria necessariamente a volta das mesmas empresas que atuavam no país. Alessandro Valente avalia que a decisão de retomar as operações também passaria pelo ambiente encontrado pelas companhias.

“O mercado precisa de estabilidade, transparência e respeito aos investimentos realizados. Sem esses elementos, dificilmente teremos empresas sérias dispostas a retornar e fazer novos aportes no país”, afirma.

As bets podem voltar a operar no Brasil, mas não há garantia de que isso aconteça — Foto: Imagem gerada por IA/OpenAI

O que aconteceu com o mercado de bets no Brasil?

As apostas de quota fixa foram legalizadas no Brasil em 2018, mas o mercado levou anos para receber uma regulamentação mais ampla. As regras aprovadas em 2023 abriram caminho para o modelo que entrou em funcionamento em janeiro de 2025, quando apenas empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda puderam oferecer apostas esportivas e jogos online em âmbito nacional. As operadoras também passaram a cumprir exigências de identificação dos apostadores, publicidade, prevenção à lavagem de dinheiro e jogo responsável.

Em pouco mais de um ano e meio, o setor alcançou uma escala considerável. Em agosto de 2026, cerca de 40 milhões de pessoas apareciam como apostadores ativos e 85 empresas tinham autorização para atuar. A estrutura formada nesse período também envolveu negócios que prestavam serviços às operadoras.

“Mais de 200 empresas estrangeiras se instalaram no país, algumas como operadoras e outras como prestadoras de diferentes serviços para essa indústria, incluindo plataformas tecnológicas, CRM, marketing e inúmeros outros fornecedores. Essas empresas investiram no Brasil, contrataram pessoas, celebraram contratos de aluguel, constituíram empresas e estruturaram suas operações confiando em um mercado que havia sido formalmente regulado”, afirma Witoldo Hendrich.

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Entenda o que aconteceu com o mercado de bets no Brasil — Foto: Freepik

O que é considerado uma aposta ilegal no Brasil?

Até setembro de 2026, uma bet ilegal era, em linhas gerais, aquela que oferecia apostas no Brasil sem a autorização exigida pelas regras do mercado regulado. A MP nº 1.394/2026 mudou esse cenário ao proibir a oferta de apostas de quota fixa no país.

Com isso, empresas que atuavam legalmente também passaram a ficar impedidas de receber novas apostas. A restrição alcança tanto plataformas brasileiras quanto empresas estrangeiras que direcionem seus serviços a pessoas localizadas no Brasil.

As operações clandestinas também podem assumir diferentes formatos. Carlos Henrique cita algumas das estruturas usadas por operações que continuam atendendo apostadores no país, como “sites estrangeiros que aceitam brasileiros, plataformas espelho, domínios alternativos, aplicativos não oficiais e intermediários usados para depósitos, publicidade ou captação”.

Sites espelho e domínios alternativos também dificultam o combate às plataformas irregulares, já que um novo endereço pode ser usado quando outro é bloqueado.

Veja o que é considerado uma bet ilegal no Brasil — Foto: Reprodução/Internet
Como identificar um site de apostas irregular?
O primeiro sinal é a própria oferta de novas apostas. Enquanto a proibição estiver em vigor, uma plataforma que permita a uma pessoa localizada no Brasil depositar dinheiro e fazer uma nova aposta de quota fixa está operando de forma irregular.
O endereço funcionar normalmente, ter versão em português ou aceitar meios de pagamento usados no país não torna o serviço autorizado. Antes da proibição, havia um recurso adicional para verificar se uma plataforma fazia parte do mercado regulado.
“O sinal mais simples, antes da proibição, era o domínio ‘.bet.br’, mas isso não substitui a checagem oficial”, explica Carlos Henrique.
Com a mudança das regras, porém, a presença desse domínio não significa que o site esteja autorizado a receber novas apostas. Também merece desconfiança uma plataforma que passe a indicar novos endereços ou formas alternativas de acesso depois de ser bloqueada.
Endereços identificados pelas autoridades podem ser bloqueados ou redirecionados para o portal Brasil sem Bets. Caso encontre uma plataforma que continue oferecendo apostas, o usuário pode denunciar a irregularidade pelo Fala.BR.
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Veja como identificar um site de apostas irregular — Foto: Reprodução/Carolina Brasil
Por que usuários tendem a migrar para plataformas ilegais?
Como mostram os dados do Instituto Locomotiva, a preocupação com uma possível migração não começa do zero. Parte das apostas online já ocorria fora do mercado regulado antes da proibição. A retirada das plataformas autorizadas adiciona uma nova variável a esse cenário: o destino dos milhões de brasileiros que já tinham o hábito de apostar.
“Do ponto de vista econômico, proibir a oferta legal reduz o mercado formal, mas não necessariamente elimina a demanda. Antes da proibição, havia cerca de 40 milhões de pessoas utilizando plataformas autorizadas. Se parte desse público continuar querendo apostar, existe o risco de migração para operadores ilegais”, explica Gabriel Vaz.
Carlos Henrique chama atenção para os recursos que essas plataformas podem usar para disputar esse público.
“O mercado ilegal pode atrair usuários porque oferece bônus agressivos, anonimato, criptomoedas, meios de pagamento indiretos e publicidade em redes sociais”, afirma.
Bets ilegais podem ser atrativas por oferecer benefícios irreais — Foto: Divulgação/Freepik
Quais são os riscos de apostar em sites não autorizados?
Apostar em uma plataforma clandestina significa colocar dinheiro em uma operação que funciona fora das regras e dos mecanismos de fiscalização previstos para o mercado regulado. Isso afeta desde as condições oferecidas nos jogos até as possibilidades de o usuário recorrer caso tenha dificuldades com a empresa.
Como esses operadores podem estar sediados no exterior e não respondem às mesmas exigências impostas às antigas bets autorizadas, o apostador também fica mais exposto em situações de prejuízo ou conflito.
“Não é possível garantir que o prêmio será pago caso o apostador ganhe. Não é possível garantir que a matemática do jogo respeite padrões aceitáveis ou que o jogo efetivamente devolva aos apostadores o percentual de prêmios para o qual foi desenhado. Um site não autorizado é, na prática, uma terra de ninguém”, afirma Witoldo.
Vaz chama atenção para a dificuldade de buscar uma solução quando há prejuízo.
“Uma empresa autorizada estava submetida à fiscalização brasileira, precisava prestar informações ao governo e seguir uma série de regras. Em uma plataforma clandestina, especialmente se estiver sediada no exterior, recuperar dinheiro ou responsabilizar os controladores pode ser muito mais difícil”, diz.
Há riscos que podem surgir antes mesmo de o apostador tentar recuperar o dinheiro.
“O usuário pode não conseguir sacar ganhos, não ter garantia de devolução de saldo, enfrentar manipulação de odds, ausência de mecanismos de autoexclusão, vazamento de dados, fraude em meios de pagamento e exposição a golpes”, alerta Carlos Henrique.
Segundo ele, há ainda o risco de a plataforma desaparecer, bloquear contas ou não oferecer qualquer canal efetivo de reclamação.
Usuários podem ficar sem receber saldo em plataformas ilegais — Foto: Mariana Saguias/TechTudo
O que pode acontecer com o mercado de apostas nos próximos meses?
Enquanto o futuro jurídico das apostas permanece indefinido, os próximos meses também devem mostrar os efeitos da proibição sobre as empresas, os antigos apostadores e o mercado clandestino.
A incerteza já afeta a estrutura criada desde a regulamentação do setor. Carlos Henrique prevê um período de “devolução de saldos, encerramento de contratos, impacto em patrocínios esportivos e reestruturação de empresas”. Para ele, a repressão às plataformas clandestinas será outra frente importante.
“Uma proibição formal, sem fiscalização tecnológica e sem política clara para o mercado ilegal, pode reduzir operadores regulados e ampliar justamente o ambiente menos supervisionado”, avalia.
Também será necessário observar o destino da demanda antes atendida pelas plataformas autorizadas e a capacidade de impedir que operadores clandestinos continuem oferecendo apostas a brasileiros.
“Os próximos meses vão mostrar se o Brasil conseguirá transformar uma proibição jurídica em uma redução efetiva das apostas. Porque, do ponto de vista econômico, existe uma diferença muito grande entre proibir um mercado e fazer desaparecer a demanda por aquele mercado”, afirma Gabriel.
Entenda futuro das bets — Foto: Mariana Saguias/TechTudo
Com informações de IBJR (1, 2 e 3)
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